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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O que é o Espírito Santo?



ESTUDO ESPÍRITA SOBRE O ESPÍRITO SANTO

“Queo Espírito Santo me ilumine e ajude a tornar compreensível a minha palavra,outorgando-me o favor de pô-la ao alcance de todos!”

Sãoraras as citações, como a em epígrafe, nas Obras Básicas ou Introdutórias daDoutrina Espírita e pouco freqüentes nas Obras complementares ou Confluentes,mas bem abundantes na Bíblia, Novo e Velho Testamentos, designando-se nelas oEspírito Santo, ora como uma entidade coletiva ora individual, um Espíritopuro, o Revelador, uma consciência moral ou uma inspiração mediúnica.

Emalgumas traduções bíblicas o dito “do Espírito” foi substituído por “doEspírito Santo”, alterando substancialmente o sentido, o que vem dificultar aanálise de toda acepção do termo, com estas inserções, sem contudoconstituir-se num impedimento. Outra não foi a intenção tendenciosa de algumastraduções.

Assim,a tradução do texto original – “Se um homem não renasce da água e do Espírito”– sofreu alteração com a referida interpolação para “da água e do SantoEspírito” e em outras para “da água e do Espírito Santo”.

Nasobras espíritas e não espíritas, vemos citações em que as ações do EspíritoSanto são definidas como uma manifestação coletiva a exemplo da que se segue:

“Falange de Emissários da Providência que superintende os grandes movimentos daHumanidade na Terra e no Plano Espiritual.”

NaBíblia, Novo Testamento, as citações são inúmeras e com sentidos vários. “Idepois, e ensinai a todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e doEspírito Santo, instruindo-os na observação de todas as coisas que vos tenhoprescrito e ficai certos de que estarei convosco até a consumação dos séculos.”(Mateus, 28:19-20.)

Equivaledizer:

Evangelizara todos, sem distinção ou privilégio, nesse mergulho nos desígnios de Deus, deJesus e dos Espíritos Superiores, porque Jesus jamais batizou alguém com a água(João, 4:2), nem os apóstolos o fizeram, enquanto Jesus estava entre eles, enem recomendava esta prática, como refere Paulo de Tarso, o Apóstolo dosGentios:

"Cristome enviou, não para batizar, mas para evangelizar." (I Coríntios, 1:17.)

Assim,podemos "ignorar" o batismo da água, e a ele não devemos nos submeter, nemsujeitar nossas crianças, (pelo menos, não com tanta veemencia) mas não o do fogo, que representa simbolicamente apurificação, a nossa transformação moral. Estaremos faceando, no Evangelho deJesus, o sábio roteiro da nossa reforma íntima, cabendo-nos vivenciar osensinamentos do nosso Mestre, que veio para nos exemplificar e não nos salvar,porque “não foi a sua morte que nos salvou, mas sua doutrina”, sendo cada umresponsável pela sua própria salvação, no sentido de remissão, resgate, e nãode remissão, anulação de nossas faltas. Estaremos realmente batizados peloEspírito, quando estivermos em sintonia com Ele, na senda do progressoespiritual.

Referindo-sea Pedro e João assim está escrito no Novo Testamento:

“Vendo,porém Simão que, pelo fato de imporem as mãos [Pedro e João] era-lhes concedidoo Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, propondo: Concedei-me também estepoder, para aquele que sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo.Pedro, porém lhe respondeu: O teu dinheiro seja contigo para a perdição, poisjulgaste adquirir por meio dele o dom de Deus.” (Atos, 8:18-20.)

Entãoo que significa o Espírito Santo para nós, espíritas?

OEspírito Santo não representa Deus, nem é uma figura dogmática da “SantíssimaTrindade”, “que não tem fundamento no espírito e na verdade dos Evangelhos”,tendo sido uma criação da Igreja e surgindo após os Concílios de Nicéia (325) eConstantinopla (381).

“Temossempre nos originais gregos no Novo Testamento, ‘Pneuma Hagion’ (Espírito Santo),sem o artigo definido ‘ho’ (o) diante dele. Neles também não há o artigoindefinido (um), porque este não existe no Grego. No Velho Testamento sóaparece o Espírito Santo como sendo um espírito humano evoluído, santo. EmIsaias (63:11), lê-se: ‘Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo?’ ”

Maisalém, no Novo Testamento, na predição do nascimento de Jesus, respondendo aMaria, o anjo Gabriel assim se pronunciou:

“Descerásobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra;por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus.”(Lucas 1:35.)

Bemmais adiante, o Espírito Santo foi referido por Jesus como o Revelador, oConsolador Prometido, a sua própria presença na Terra:

“Eeu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja sempreconvosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vênem o conhece, mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará, em meunome, esse vos ensinará todas as cousas e vos fará lembrar de tudo o que vostenho dito.” (João, 14:16-17 e 26.)

DeBezerra de Menezes – culto, virtuoso e simples, o “médico dos pobres” e dasnossas almas, “agente das luzes do Consolador”, um fenômeno só compreensívelpor quem possua a noção da infinitude do bem do ser espiritual, pinçamos umtrecho de seu pronunciamento, respondendo sobre os méritos e o valimento doEspiritismo:

“AllanKardec, Espírito preposto por Jesus para reunir em um corpo de doutrina ensinosconfiados, pelo mesmo Jesus, ao Espírito de Verdade, constituído por uma legiãode Altíssimos Espíritos, só apanhou o que estes deram, e estes só deram o queera compatível com a compreensão atual do homem terreno.”

OEspiritismo é uma doutrina eminentemente consoladora, representando oConsolador Prometido por Jesus, a Terceira Revelação, fruto do ensino coletivodos Espíritos, que pontificaram em vários pontos do Planeta, sendo reunidas porKardec, após análise da razão, na Codificação Espírita.

“Razão,ciência e fé – Tal a trindade de que se compõe a Terceira Revelação.” ADoutrina Espírita veio completar suas instruções e ensinar todas as coisas, queo mundo pode agora receber, relembrando e renovando todos os seus ensinamentossendo ela extremamente dinâmica, mantendo-se, por isso mesmo, sempre atualizadae em conformidade com a Ciência, como sempre foi.

“Desvirtuadapor completo de sua verdadeira significação, a promessa de Jesus não representapara a Igreja Romana e Protestante a difusão do Espírito, ou antes dosEspíritos, que, por ordem de Deus e enviados por Jesus, viriam estabelecertodas as coisas, mas sim um dom sobrenatural, um movimento do cérebro e docoração que Deus operou unicamente nos Apóstolos, no dia de Pentecostes.”

AllanKardec fornece as explicações necessárias, sobre estas manifestaçõesmediúnicas, esclarecendo sobre a natureza sua e situando-as no contexto doentendimento da Terceira Revelação.

“Sedisserem que esta promessa se cumpriu no dia de Pentecostes, por meio dadescida do Espírito Santo, poder-se-á responder que o Espírito Santo osinspirou, que lhes desanuviou a inteligência, que desenvolveu neles as aptidõesmediúnicas destinadas a facilitar-lhes a missão, porém que nada lhes ensinoualém do que Jesus já ensinara, porquanto, no que deixaram, nenhum vestígio seencontra de um ensinamento especial".

Vendopor outro dos inúmeros prismas, esclarece-nos Emmanuel, que ora Espírito Santo“designa a legião dos Espíritos santificados na luz e no amor, que cooperam como Cristo desde os primeiros tempos da Humanidade”.

Ora,como no Novo Testamento, foi usado noutro sentido, como em:

“Todosos pecados lhe serão perdoados, menos os cometidos contra o Espírito Santo.Aqui, representa “ a falta cometida com a plena consciência do dever, depois dabênção do conhecimento interior despertando em nosso íntimo a centelha doespírito divino, que se encontra no âmago de todas as criaturas e a alma humanaestará contra si mesma, repudiando as suas divinas possibilidades.”

ADoutrina Espírita é consoladora, estabelecendo a verdade sobre Deus; não “umDeus que manda tentar, por seus sequazes, a pobre criatura humana, para ter oprazer de condená-la para sempre ao fogo eterno”, mas um Deus soberanamentebom, justo e misericordioso e que, portanto, não deserda seus filhos,condenando-os a penas eternas, pois não há, para Ele, faltas irremissíveis.“Não pode ser infinitamente vingativo, nem nos imobiliza no mal.”

# Éconsoladora porque explica, pela reencarnação, como age esta Justiça Divina,única maneira compatível com nosso Pai Amoroso, que nos criou simples eignorantes, na certeza de que pela nossa evolução espiritual, através dapluralidade das existências e dos mundos habitados, todos alcançaremos aperfeição e a felicidade, porque como prometeu Jesus, “das ovelhas que meu Paime confiou, nenhuma se perderá”.

# Éconsoladora porque nos remete à fé raciocinada e à nossa reforma íntima, nacerteza de que “a cada um será dado segundo as suas obras”. (Mateus, 16:27.)

# Éconsoladora porque restabelece e amplia a evocação e a comunicabilidade dosEspíritos, tornando-a extremamente dinâmica, tendo suas mensagens enxugado lágrimase pacificado corações.

# Éconsoladora porque, através do passe e da água fluidificada, transfere energiabenfazeja aos necessitados, promovendo, sempre que possível, sua reestruturaçãofísica e mental.

# Éconsoladora porque nos faz aceitar a dor com resignação, na certeza de que sereverterá no nosso burilamento espiritual e, por isso, na nossa evolução, numprocesso, não punitivo, mas educativo, concedido por Deus, nosso Pai Amoroso.

EmPentecostes, visualiza-se um outro prisma de enfoque:

“Derepente veio do Céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda casa ondeestavam assentados. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falarem outras línguas, segundo o Espírito, lhes concedia que falassem.” (Atos, 2:2e 4.)

Foiuma manifestação mediúnica de xenoglossia coletiva em que eles estavam “cheiosdo Espírito Santo”, portanto, em transe mediúnico e falavam idiomas por elesdesconhecidos nesta encarnação, mas cada um os ouvia falar em seu próprioidioma, como muita vezes acontece até hoje, individualmente, nas específicas eselecionadas manifestações espíritas.

“Estava,portanto, cumprida a promessa e, com ela, fundada a igreja viva de Jesus-Cristoneste mundo.”

Assim,sejamos plenos do Espírito Santo, para que possamos, crentes na mesma crença,ser os divulgadores, na mesma seara, da Terceira Revelação, trazida ao nossoconhecimento pelo Espírito Santo.

Referindo-sea ela, manifestou-se o Espírito Bezerra de Menezes, na mensagem ao ConselhoFederativo Nacional:

"Onosso compromisso é com Jesus, o Amor, e com Allan Kardec, a razão, para que areligião cósmica da verdade domine os corações humanos, restaurando no planetaa era da legítima fraternidade."

Fernando A. Moreira
Fonte:Reformador/Julho 2004


Comentário: Só existe uma verdade, uma realidade noUniverso e fora, se é q existe algo mais além do Universo: essa realidade éaquilo a q as diferentes crenças deram o nome de Deus, Alá, Espírito Santo, Espírito,o reino dos céus, Cristo, Buda, consciência cósmica, consciência Crística, consciênciabudica, consciência universal, consciência una, mente, samadhi, nirvana,satori, iluminação etc., conforme as diferentes culturas. Essa palavra é tãosomente um rótulo q não representa Deus, pois 'a palavra não é a coisa, masapenas o símbolo da coisa'. É a Realidade subjacente a tudo, seres e fenômenos.Há certas religiões no Oriente q lhe dão 'mil' nomes porque nenhum tem a capacidadede explicá-lo. É o Vazio, o Zero, o Absoluto, o Nada e o Tudo, o Alfa e oÔmega. Enfim só Deus existe, infinito e eterno; tudo o mais, você, eu, eles,animais, vegetais e minerais, os planetas, luas, estrelas, sóis e galáxias,tudo é apenas efeito de Deus. Deus é a única causa e, sendo infinito, é o únicoefeito. Se houvesse no universo algo, por mais insignificante e ínfimo q fosse,além de Deus, este não seria infinito; haveria Deus e algo mais. Como éinfinito está fora e dentro de tudo, como ensinou Paulo: "Nele vivemos erespiramos; Ele está à esquerda e à direita, à frente e atrás, acima eembaixo", dentro e fora, pois o "O Senhor habita vossoscorações" e "Vós sois o templo do Altíssimo", e Jesus: "Nãodireis, 'ei-lo aqui' ou 'ei-lo acolá', pois reino de Deus está dentro devós". É o Criador, o Mantenedor e o Destruidor de todas as coisas. Tudovem de Deus e desaparece novamente em Deus. Essa a concepção das grandestradições místicas orientais, de séculos ou milênios antes de Cristo, e é aconcepção dos místicos ocidentais, inclusive do primitivo cristianismo, ocristianismo de Jesus, não o cristianismo ensinado pelas igrejas, quemodificaram totalmente a antiga concepção. Em fim, não é algo ou um ser queestá lá em cima nos céus, longe de nós, ele lá e nós aqui. Não é algo quedevemos alcançar pois isso seria, como diz o Zen Budismo, "montar no boipara procurar o boi". Ele já está aqui em nós e em tudo. O que nos falta éperceber, é ter a experiência mística, isto é, é conhecer essa verdade. Nossa ignorância,que não é fruto de nada, de nenhuma ação que praticamos, é que nos venda osolhos (a mente) e impede que vejamos a Realidade. Para vê-la temos de ir alémdo ego, além do espaço-tempo, ir para o atemporal, q está aqui e agora, mas quenos foge à percepção. "É insensatez que vocês desejem entrar no reino deDeus sem primeiro entrar em vocês mesmas, pois é dentro de cada um de nós queDeus está e ali é que vamos encontrá-lo e compreendê-lo". Deus é e somenteDeus é.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Judas Escariotes - Por Humberto de Campos



Silêncio augusto caisobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono demuitos séculos. Além descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longanoite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há umtraço da Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo ocenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, comose as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisastumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.

Foi assim, numadestas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.

Os espíritos podemvibrar em contacto direto com a história. Buscando uma relação íntima com acidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos.Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de umdecreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição edesgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorremas ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório mortodos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.
Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, ondePrecursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. Desua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante.

- Sabe quem é este? –murmurou alguém aos meus ouvidos. – Este é Judas.

- Judas?!...

- Sim. Os espíritosapreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás,visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-semomentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento nopassado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro.Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de NossoSenhor, meditando nos seus atos de antanho...

Aquela figura dehomem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, masentre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. Omeu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para queeu o atravessasse, procurando ouvi-lo.

-O senhor é, de fato,o ex-filho de Iscariot?

– Sim, sou Judas –respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longatúnica. Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalémarruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...

- É uma verdade tudoquanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia dacondenação de Jesus?

- Em parte... Osescribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e àstricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação.Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuaisna questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estadoromano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus.Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando porJeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essasforças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonadospelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina mefez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, únicaarma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com assuas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu mantode pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei entãouma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe deEstado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradorespara uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro,o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenasserviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás,não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos,presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.

- E chegou asalvar-se pelo arrependimento?

- Não. Não consegui.O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minhamorte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta.Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina deJesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, ondeimitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e datraição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa doséculo XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos ostormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meusverdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentidona fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...

- E está hojemeditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.

- Sim... Estourecapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se achano seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestasestradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deuso seu destino... Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaraminteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que Oampararam no doloroso transe... Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sousempre a figura repugnante do traidor... Olhocomplacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra...Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios demiséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porquejá fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.

Quanto ao Divino Mestre –continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não sópara comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, hámuitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e aretalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...

- É verdade – concluí– e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-Lo.

Judas afastou-setomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveispara o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvenspardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençolde águas mortas, procurando um mar morto.

Recebida em Pedro Leopoldo a 19 de abril de 1935 - Do livro Crônico deAlém Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Judas Iscariotes - Por Humberto de Campos



Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos séculos. Além descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa noite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há um traço da Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, como se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisas tumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.

Foi assim, numa destas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.

Os espíritos podem vibrar em contato direto com a história. Buscando uma relação íntima com a cidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório morto dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.

Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde Precursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante.

- Sabe quem é este? – murmurou alguém aos meus ouvidos. – Este é Judas.

- Judas?!...

- Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho...

Aquela figura de homem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. O meu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo.

-O senhor é, de fato, o ex-filho de Iscariot? – Sim, sou Judas – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica. Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...

- É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?

- Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade. Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás, não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.

- E chegou a salvar-se pelo arrependimento?

- Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...

- E está hoje meditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.

- Sim... Estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deus o seu destino... Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe... Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.

Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...
- É verdade – concluí – e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-Lo.

Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.

Por Humberto de Campos


Recebida em Pedro Leopoldo a 19 de abril de 1935 - Do livro Crônico de Além Túmulo. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
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